O quebra-cabeça de Putin pós-motim

O presidente da Rússia, Vladmir Putin, enfrentou neste fim de semana um motim do grupo mercenário Wagner, que tem sido utilizado na linha de frente na Guerra da Ucrânia. Após um acordo, a ameaça de que as tropas de Yevgeny Prigozhin, chefe do Wagner, pudessem chegar a Moscou foi desfeita, com o recuo dos soldados.


Prigozhin, dono de empresa que fornece comida ao Kremlin,
 serve Putin. (Misha Japaridze/AP/picture alliance)


Contudo, restou um campo inteiro de interrogações na cabeça dos analistas do que, de fato, ocorreu (e está ocorrendo) na Rússia. Enquanto Prigozhin fazia suas ameaças por meio do Telegram, o que não faltaram foram tentativas de se descobrir o que, de fato, estava ocorrendo.

Analisar eventos de relações internacionais – sobretudo guerras –, porém, é extremamente difícil, pois há uma falta considerável de informações confiáveis do que se passa. Sem elas, o que a gente percebe são observadores fazendo apostas e ‘dando tiros n’água’. Ler e ouvir, mais do que falar e escrever, é o caminho do analista sensato.

Somado a isso, é necessário saber que mesmo fatos podem ser desmentidos e/ou revelados a qualquer momento, o que muda toda a análise da situação. No meio de toda essa confusão, há algumas hipóteses sendo trabalhadas:


1) De fato Prigozhin se revoltou e pretendia chegar a Moscou e, se não derrubar o governo de Putin, mostrar força. Um acordo via presidente de Belarus, Aleksandr Lukashenko, conseguiu evitar maior dor de cabeça para Putin, que se viu na berlinda em alguns momentos.

Pontos fortes dessa hipótese – Foi a versão pública em que a maioria trabalha até este momento. Ela vai ao encontro da crise que Prigozhin estava tendo com o ministro da Defesa russo Sergei Shoigu. 

Pontos fracos – Há questões a serem respondidas sobre tal hipótese: por que não houve luta nas ocupações de bases do exército russo em três cidades importantes, como Rostov do Don e Voronej?; por que Prigozhin desistiu do plano tão próximo de Moscou (200 km), se ele estava conseguindo avançar rapidamente e, aparentemente, sem resistência?; se não queria derrubar Putin, por que mirou Moscou e não ficou “apenas” ocupando a região de Rostov, o que lhe daria força para negociar?


2) Prigozhin queria apenas marcar posição e pressionar Putin, então fez um rápido motim. Já tinha, inicialmente, plano de encerrá-lo sem batalhas.

Pontos fortes – uma hipótese que ajuda o desfecho a fazer sentido.

Pontos fracos – ainda assim, não explica o porquê de não ter tido combates até 200km de Moscou. Além disso, tal ação teria sido compensatória a Prigozhin, já que ele certamente rifou a sua relação com Putin? 


3) Não gosto de teorias das conspiração, mas li uma hipótese interessante ao pregar que tudo poderia não passar de um teatro. Putin teria como objetivo principal saber com quem ele pode contar e quem o trairia na primeira oportunidade.

Pontos fortes – responde a pergunta sobre não ter tido combates e vai ao encontro do fato de que Prigozhin é uma pessoa da mais alta confiança de Putin, tanto que o líder russo lhe confia o fornecimento de comida do Kremlin.

Ponto fraco – o argumento contrário mais forte é que Putin externou fraqueza interna, algo caro a qualquer governante, principalmente em meio a uma guerra. Um ‘teatro’ deste tipo é algo extremamente perigoso para alguém que já está pressionado desde o início da Guerra da Ucrânia.


Vamos acompanhar o desenrolar nos próximos dias da situação e coletar mais pistas para tentar montar esse quebra cabeça.

Eduardo Sartorato

Jornalista e mestre em Estudos Globais / Relações Internacionais pelo programa Erasmus Mundus (Universidade de Viena e Universidade de Wroclaw)

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato