Israel vira pedra no sapato para retórica americana

Os Estados Unidos foram construídos por meio de conceitos sólidos de democracia, liberdade, respeito às decisões multilaterais e fortalecimento dos Direitos Humanos. Pelo menos no discurso, essa retórica sempre foi muito utilizada pelos norte-americanos no modo como atua em sua política internacional. “Levar a democracia” a povos que não possuem “liberdade” foram os norteadores de intervenções militares como, por exemplo, no Iraque, em 2003.

O desrespeito aos Direitos Humanos e tratados internacionais por parte de Israel, em sua guerra contra o Hamas, porém, está colocando em xeque a pedra fundamental da base ideológica histórica norte-americana. Não é a primeira vez que isso ocorre, mas, atualmente, pelo menos dois aspectos têm multiplicado o desgaste estrutural dos Estados Unidos no cenário internacional.


Corpos de palestinos mortos em ataques de Israel na Faixa de Gaza (Crédito: IRNA / Fotos Públicas)


Apoio irrestrito

O primeiro é que Israel é um dos principais aliados dos americanos no globo e ignora o apelo de grande parte do mundo por cessar fogo em Gaza. Faz repetidos ataques em locais com grande concentração de civis e desconsidera qualquer resolução ou pedido de órgãos internacionais como a ONU. A impressão maior é que ninguém é capaz de parar a máquina de guerra do governo de Benjamin Netanyahu.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos, talvez o único país com poder de influência para dissuadir os israelenses, parecem não se importar muito com o resultado fúnebre em relação às baixas civis (maioria mulheres e crianças). Seus esforços para a resolução do conflito são extremamente modestos, enquanto que o apoio a Israel é quase total e irrestrito.

 

Incoerência americana

O segundo aspecto é que a comparação entre este conflito e a guerra entre Rússia e Ucrânia, que ocorre paralelamente, mostra claras incoerências na retórica histórica dos Estados Unidos. A Rússia é considerada pelos americanos a grande vilã da ação militar na Europa por seus desrespeitos às leis e instituições internacionais, além de ignorar os Direitos Humanos. Mas assim, também, é exatamente como Israel age em Gaza.

Contudo, os americanos impuseram milhares de sanções econômicas e políticas à Rússia, mas nada em relação a Israel. Pelo contrário, fornece ajuda militar aos seus aliados no Oriente Médio, mesmo diante de um conflito que salta aos olhos de todos pela sua desigualdade entre os dois lados.

Recentemente, em mais uma ação que mostra hipocrisia, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou, na terça-feira (4/6), um projeto de lei que impõe sanções ao Tribunal Penal Internacional (TPI) por solicitar mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e outros membros de seu governo. Vale lembrar que, em março de 2023, o mesmo TPI decretou um mandato de prisão contra o presidente russo Vladmir Putin e, na oportunidade, o presidente americano Joe Biden considerou a ação “justificável”. Putin foi acusado de ser responsável pela deportação ilegal de crianças ucranianas e sua transferência para a Rússia, o que é considerado um crime de guerra. Em Gaza, cerca de 14 mil crianças já morreram, e estima-se que 17 mil estão órfãs.

 

Argumento vencido

O principal argumento para esse posicionamento anti-Rússia e favorável a Israel é que o primeiro invadiu a Ucrânia, enquanto que o segundo foi atacado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1,1 mil pessoas e fez centenas de reféns. De fato, a Rússia infringiu leis internacionais ao adentrar ao território ucraniano em 2022 e deve ser responsabilizada por isso. Porém, a ação traiçoeira e bárbara do Hamas não justifica chacina tão mortífera de Israel em Gaza - cerca de 35 mil mortes até o momento -, que liquida, sobretudo, civis. Mesmo com a Rússia na condição de agressor, na Europa há, de fato, uma guerra, enquanto que no Oriente Médio é um massacre.

O discurso israelense de “direito de defesa” já se expirou há muito tempo, principalmente por suas repetidas ações consideradas como crimes de guerra, como ataques a hospitais e migração forçada. Na quinta-feira (6/6), as tropas de Israel atacaram uma escola da ONU em Gaza, deixando 35 mortos, entre eles mulheres e crianças.

 

Biden de olho nas eleições

A atual conjuntura das duas guerras, talvez, tem sido um dos cenários mais desafiadores para a retórica democrática dos Estados Unidos na história recente. O massacre em Gaza tem sido levado em banho-maria por Joe Biden, de olho no apoio da grande e poderosa comunidade judaica ao seu projeto de reeleição.

Ao mesmo tempo, Biden tenta se equilibrar para não perder o eleitorado progressista, que muito se incomoda ao ver as dezenas de milhares de corpos de inocentes no chão de Gaza. O americano quer um acordo de cessar fogo que abrigue os objetivos de Israel, mas se nega a cortar a ajuda militar ao país. Enquanto isso, dezenas de civis palestinos morrem todos os dias. Junto com eles, tratados, organizações internacionais e, principalmente, a retórica americana de democracia e apoio às comunidades entre nações.

Eduardo Sartorato

Jornalista e mestre em Estudos Globais / Relações Internacionais pelo programa Erasmus Mundus (Universidade de Viena e Universidade de Wroclaw)

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