Momento decisivo para a ONU

O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou nesta quarta (15) uma resolução que prevê uma pausa humanitária na guerra entre Israel e o Hamas. O documento foi criticado pela delegação e governo israelenses, que rejeitam o seu cumprimento. Vale lembrar, porém, que uma resolução do Conselho de Segurança da ONU tem poder vinculante. Ou seja, cabe aos países membros o cumprimento. Contudo, o embaixador de Israel na Organização disse que o país vai ignorar a votação e “continuará a agir até que o Hamas seja destruído e os reféns devolvidos”.


Cidade de Gaza destruída após bombardeios israelenses | Foto: Via X user @Sprinter99800

 

Esta é uma oportunidade de ouro para que a ONU consiga recuperar um pouco de seu protagonismo, perdido nas últimas décadas devido aos choques de interesses das grandes potências, principalmente os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança que possuem poder de veto – Estado Unidos, Reino Unido, China, Rússia e França.

Após a aprovação desta resolução – que nem mesmo os Estados Unidos, aliados de primeira hora de Israel, vetaram -, cabe à Organização apertar o cerco contra os israelenses, caso estes não cumpram o aprovado. A discussão de pesadas sanções é algo esperado contra qualquer membro que não respeite a decisão do Conselho de Segurança.


Resolução aprovada 

A resolução proposta por Malta foi aprovada com 12 votos a favor (Albânia, Brasil, Equador, Gabão, Gana, Japão, Malta, Moçambique, Suíça, Emirados Árabes, China e França) e três abstenções (Estados Unidos, Reino Unido e Rússia).

No mês passado, o Brasil havia sugerido uma resolução que abria a possibilidade de ações humanitárias em Gaza, condenava os ataques do Hamas e revogava a ordem de retirada de civis palestinos do norte da região. O documento teve 12 votos a favor e duas abstenções. O voto contrário dos Estados Unidos, porém, evitou a sua aprovação.

 

Confronto desproporcional

Israel sofreu o terror de um ataque surpresa do Hamas no início de outubro, quando mais de mil israelenses morreram e centenas foram feitos reféns, levados para a Faixa de Gaza. A contraofensiva israelense, porém, é vista por muitos como algo completamente desproporcional.

Já são mais de 40 dias de bombardeios intensos sobre a população civil no território palestino, além de uma incursão terrestre iniciada há algumas semanas. Segundo autoridades dos dois países, a guerra, até o momento, já coleciona mais de 12,4 mil mortos, a grande maioria civis – cerca de 11.200 palestinos e 1.200 israelenses.


Crianças recebem um pouco de água em Rafah, no sul de Gaza | UNICEF/Eyad El Baba

Possíveis crimes de guerra

Além disso, muitas ações de Israel na Faixa de Gaza são consideradas pela ONU como crimes de guerra, como ataques a ambulâncias, hospitais e a exigência do êxodo de milhões de palestinos do norte para o sul da região.

O jornal americano The New York Times divulgou evidências de que o ataque que atingiu o maior complexo hospitalar de Gaza, o Al-Shifa, na sexta (10), foi realizado pelo exército israelense. Além disso, segundo a publicação, os alvos não parecem ter sido membros do Hamas.

“Os ataques analisados pelo Times não parecem ter como alvo a infraestrutura subterrânea. Dois dos ataques mais graves atingiram os andares superiores da maternidade”, diz matéria da Folha de São Paulo, baseada no texto do New York Times.

Na noite de terça (14), tropas israelenses invadiram o mesmo Hospital Al-Shifa, o que causou repercussão negativa de organizações internacionais. O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom, disse estar “profundamente preocupado” com a ação. Já o subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Martin Griffths, disse estar “horrorizado”com a situação.


Luz no fim do túnel

A aprovação da resolução que prevê pausa humanitária para o conflito na Faixa de Gaza pelo Conselho de Segurança da ONU é uma luz no fim do túnel. A ONU, porém, precisará ser altiva para forçar o seu cumprimento, ou adotar punições a altura. É a hora para a Organização mostrar que ainda pode fazer a diferença em um mundo que, cada vez mais, países parecem estar abandonando a cooperação multilateral e agindo, principalmente, por seus interesses individuais.

Eduardo Sartorato

Jornalista e mestre em Estudos Globais / Relações Internacionais pelo programa Erasmus Mundus (Universidade de Viena e Universidade de Wroclaw)

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem

Formulário de contato